Quando Gabriella Ranieri coloca a bandana verde em Zoff, o golden retriever de seis anos entende que não está saindo para um passeio comum. No hospital, ele percorre os corredores, aproxima-se de pacientes e profissionais de saúde e permanece ao lado de pessoas que, muitas vezes, estão fragilizadas ou sentem saudade dos próprios animais.
Advogada há 26 anos, Gabriella percebeu no comportamento sociável de Zoff o início de uma trajetória como voluntária. Ela o adotou ainda filhote, aos dois meses, durante a pandemia. Quando começaram a sair, observou que o cão estabelecia uma conexão espontânea com as pessoas que encontrava na rua. Alguns chegavam a agradecer pela oportunidade de acariciá-lo.
A partir dessa percepção, Gabriella começou a procurar informações sobre cães que participavam de intervenções assistidas por animais. Por meio das redes sociais, conheceu o INATAA – Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por Animais. Entrou em contato com a instituição, participou de uma palestra de formação e iniciou sua atuação como voluntária sem cão, enquanto Zoff passava pelo processo de avaliação e preparação.
Foi nesse período que viveu uma experiência decisiva para compreender o alcance do trabalho. Durante uma visita hospitalar, Gabriella acompanhava outra voluntária e sua cadela, Nala, quando entraram no quarto de um menino que faria uma endoscopia no dia seguinte, diante da suspeita de câncer no estômago. Fraco e apático, ele observava a cadela e fazia carinho nela, mas praticamente não reagia.
Na hora da saída, Nala sentou-se e levantou a pata para se despedir, movimento ensinado pela sua responsável. O menino então abriu um sorriso. Emocionada, a mãe contou às voluntárias que o filho não sorria havia muito tempo.
“Foi um gesto muito simples, mas que desencadeou uma reação que aquela mãe conseguiu perceber. Nós sorrimos de maneira tão involuntária que nem sempre compreendemos o significado disso. Naquele momento, entendi o grande propósito deste trabalho”, recorda Gabriella.
Depois da formação de sua responsável, Zoff passou por avaliações de saúde e de comportamento e recebeu acompanhamento para desenvolver as habilidades necessárias às atividades. No INATAA, os cães começam usando uma bandana branca e, após o período de preparação e adaptação, passam a vestir a verde, que identifica aqueles efetivados para as intervenções.
Atualmente, Gabriella e Zoff realizam aproximadamente três atividades por mês. No Hospital Cruz Azul, em São Paulo, visitam principalmente os andares de cuidados paliativos e oncologia. Na Fundação CASA (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), participam de encontros com adolescentes nas unidades de Itaquera e Osasco. A dupla também já atuou em um lar voltado ao atendimento de pessoas idosas.
A interação é adaptada ao perfil do público e às condições de cada espaço. Nas visitas a pessoas acamadas, Gabriella posiciona Zoff em uma cadeira próxima ao leito e conduz a conversa. Muitos pacientes aproveitam o encontro para recordar os animais que deixaram em casa. Na Fundação CASA, a programação inclui conversas sobre possibilidades de atuação profissional com cães, como passeador, banhista e outros cuidados com a saúde física e mental dos cães, além da apresentação dos truques aprendidos por Zoff.
As visitas contam sempre com o acompanhamento de um adestrador, que observa o comportamento do animal, e de voluntários sem cão. Enquanto essa pessoa auxilia na interação com os assistidos, a responsável mantém atenção constante aos sinais emitidos por Zoff, e seu bem-estar.
Saúde e bem-estar fazem parte da preparação
Celebrado em 28 de agosto, o Dia Nacional do Voluntariado chama a atenção para pessoas que dedicam tempo e habilidades a diferentes causas. Nas intervenções assistidas por animais, entretanto, a disposição para ajudar precisa vir acompanhada de formação, constância e cuidados com os cães.
Antes das visitas, Gabriella evita atividades que possam cansar Zoff e considera fatores como a temperatura do ambiente. O banho é realizado no dia anterior e, antes da entrada nas instituições, são higienizados boca, patas e regiões genitais e perianal. O cão passa por avaliação de saúde a cada seis meses e por exames de fezes trimestrais, além de receber alimentação equilibrada e suplementação.
A duração das atividades não ultrapassa uma hora e meia. Mas se Zoff fica mais quieto, permanece deitado ou procura a saída, Gabriella reconhece que ele está cansado e junto com a equipe de comportamento do INATAA encerram o atendimento, respeitando a comunicação e a escolha do cão. Depois das visitas ao hospital, a dupla passa por uma área gramada, onde o cão pode brincar e relaxar.
“Quando coloca a bandana, ele se transforma e entende que está ali para trabalhar. Mas também precisamos respeitar sua disposição e seus limites. Para desenvolver essa atividade, não basta achar bonito: é necessário comprometimento, preparação e cuidado contínuo com o cão”, afirma.
INATAA reúne cerca de 50 voluntários
Com sede em São Paulo, o INATAA desenvolve intervenções assistidas por animais em hospitais, instituições de longa permanência, escolas, abrigos, casas de passagem e outros espaços. Atualmente, o Instituto reúne cerca de 50 voluntários, entre participantes que atuam com e sem animais, e 11 cães coterapeutas.
“Os cães que atuarão como coterapeutas passam por um rigoroso processo de seleção e avaliações pertinentes ao desempenho físico, psicológico e comportamental. Da mesma maneira, os responsáveis passam por uma formação que os prepara para frequentar esses ambientes e lidar com assistidos que, muitas vezes, estão em situação de fragilidade física ou emocional”, explica Cristiane Fraga, Médica-Veterinária do INATAA.
Parceira do Instituto, a Vetnil® apoia o desenvolvimento das atividades e acompanha o trabalho realizado pelas equipes de voluntários e pelos cães coterapeutas nos diferentes espaços atendidos.
“O trabalho desenvolvido pelo INATAA mostra como a relação entre pessoas e animais pode contribuir para criar momentos de acolhimento em contextos de fragilidade. Por trás de cada visita, existe uma rede formada por voluntários, profissionais, responsáveis e cães preparados para essas atividades. Apoiar o Instituto é uma forma de contribuir para que esse trabalho continue alcançando diferentes públicos”, afirma Michelle Bertolini de Couto, gerente de Marketing Pet e Institucional da Vetnil®.
Para Gabriella, a experiência também transforma quem decide doar seu tempo. “As pessoas carregam suas próprias cicatrizes. Nesse momento, eu pego a minha dor, coloco no bolso e vou me doar. Oferecer acolhimento sem esperar algo em troca nos enriquece e nos transforma como seres humanos”, conclui.
Não é necessário ter um cão para integrar o INATAA. Os interessados podem acompanhar as duplas (de responsáveis e seus cães), auxiliar nas atividades, atuar em funções administrativas ou contribuir como profissionais de diferentes áreas. Já os responsáveis que desejam participar com seus animais precisam passar pelas etapas de formação do voluntário, seleção, avaliação e treinamento dos cães. Mais informações estão disponíveis em: www.inataa.org.br.
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